Já pensou no poder das mãos invisíveis dos professores?

A professora Edna Marturano da USP-RP apresenta contribuições para se pensar a atuação do professor na Educação Básica.

Práticas de Professores na sociedade atual

O século XXI encontrou o mundo em acelerado processo de mudanças. No setor produtivo, profissões desaparecem, ao passo que novas ocupações surgem, modificando o mapa de oportunidades no mercado de trabalho. Na vida particular, multiplicam-se as modalidades de composição e funcionamento familiar. A tecnologia invadiu o cotidiano, modificando de modo irreversível as formas de comunicação e até mesmo o modo de vida de milhões de pessoas ao redor do mundo. Isso, apenas para citar três domínios onde profundas transformações têm ocorrido.

Como preparar o indivíduo para viver, conviver e contribuir para a vida em sociedade, nesse cenário mutante? Nessa tríplice pergunta, pelo menos a última parte interessa diretamente à escola e, por extensão, ao professor. Oportuna, assim, a iniciativa de discutir as relações humanas no contexto da prática docente, refletindo sobre o repertório de habilidades interpessoais para promoção do desenvolvimento humano.

Para a professora Edna: é fundamental a discussão com uma análise do papel do professor no processo de ensino e aprendizagem, visando à educação do indivíduo para um mundo em transformação, o que vale dizer, visando à sua formação integral. Nossa fala se dirige ao professor e aos profissionais da educação que trabalham no ensino básico.

A universalização do acesso à educação infantil e as mediações do professor. O impacto da instituição escolar na vida e no desenvolvimento das pessoas que passam por ela provavelmente ainda não foi apreciado em justa medida. As crianças vão para a escola em idade cada vez mais precoce. Com a universalização do acesso à educação infantil, a partir dos quatro anos de idade os pequenos brasileiros gastarão na escola, em contato com educadores e companheiros da mesma idade, pelo menos a quarta parte do tempo que passam acordados, e isso em fase de acelerado desenvolvimento psicobiológico.

Desse modo, a aprendizagem escolar se dá em um contexto de intensivas e recorrentes interações. Independentemente de conteúdos, no contato diário com os companheiros e os professores a criança aprende e se desenvolve. No entanto, em uma visão tradicional do papel do professor, o estudo das relações humanas na sala de aula tem sido subordinado a metas de transmissão de conteúdos e construção de conhecimentos. Só recentemente a sala de aula passou a ser vista como um sistema social sob a liderança do professor.

A análise do papel do professor é aqui empreendida em duas perspectivas que interessam à psicologia escolar e educacional. A primeira trata do poder do professor para influenciar as interações dentro e fora da sala de aula, e seu impacto sobre o aprendizado e o desenvolvimento socioemocional dos alunos.

A posição do professor e a metáfora da "mão invisível"

A posição privilegiada do professor como um agente de socialização está muito bem caracterizada na metáfora da "mão invisível" explicada por Farmer et al. (2011). A segunda perspectiva está centrada na chamada "educação não cognitiva" e seu potencial em termos de capacitação para a vida adulta em nossa sociedade. "Educação não cognitiva" é expressão cunhada como contraponto e complemento à educação tradicionalmente voltada para o desenvolvimento de competências cognitivas, tais como as habilidades de leitura e escrita e o raciocínio numérico. Ela remete ao desenvolvimento de competências interpessoais e traços de caráter que a pesquisa empírica tem demonstrado estarem estreitamente ligadas a percursos de vida de melhor qualidade seja em termos acadêmicos, ocupacionais ou pessoais. Os estudos e experiências relatados nesta mesa redonda podem ser lidos e apreciados na convergência entre as duas perspectivas.

O professor exerce sua influência quer diretamente, nas interações face a face, quer indiretamente, no manejo da turma. Por suas atitudes, práticas de ensino e estratégias disciplinares, ele intervém efetivamente nos relacionamentos entre seus alunos. Já foi demonstrado, por exemplo, que os alunos do ensino fundamental mostram taxas menores de agressão quando seus professores prestam mais suporte emocional e adotam práticas mais efetivas de manejo da turma. Também tem sido observado que o professor pode, deliberadamente, promover comportamentos pró-sociais e melhorar a convivência entre os alunos, por meio de intervenção formativa, visando ao desenvolvimento de habilidades sociais, controle do estresse e sensibilização para os valores humanos básicos.

Pensando nas influências do professor na socialização dos alunos.

Quais seriam os limites da influência do professor na socialização dos alunos? Do ponto de vista do desenvolvimento, é entre os alunos mais jovens, da educação infantil e do primeiro ciclo do ensino fundamental, que o professor poderá ajudar diretamente as crianças a reduzirem a agressão, gostarem da escola, ganharem reputação favorável entre os pares e se relacionarem positivamente; ele fará isso por diversos meios: no relacionamento amistoso e respeitoso com os alunos, na disponibilidade para apoio emocional, na forma proativa e assertiva de colocar limites e no modo de gerenciar e organizar as atividades da turma.

À medida que avançam no ensino fundamental, as crianças desenvolvem relações mais estratificadas com os companheiros e aparecem as amizades estáveis. O status social no grupo tende a se cristalizar. A influência socializadora do professor pode diminuir ao longo destes anos, já que as relações não são tão maleáveis como nos anos anteriores. Mas se houver engajamento coletivo da comunidade escolar, transformações significativas para melhor podem ainda acontecer.

Conclusão

À luz da metáfora da "mão invisível" e das proposições da educação não cognitiva, as pesquisas e experiências relatadas se mostram reveladoras do poder do professor como um líder da comunidade constituída pela turma de alunos em uma sala de aula. Expandem-se assim as fronteiras da ação usualmente atribuída ao professor de ensino básico - a de um ministrante e promotor da aprendizagem de conteúdos escolares. Sem deixarem de reconhecer o papel tradicional do professor e sua importantíssima contribuição à sociedade, ambas as apresentações realçam o papel desse profissional da educação como um facilitador do desenvolvimento socioemocional dos alunos.

E sabe-se hoje da importância que têm os recursos socioemocionais na determinação da trajetória dos indivíduos, não somente em termos de progressão escolar, mas também em outros domínios como o sucesso profissional e a saúde, influenciando seu desenvolvimento integral no ciclo da vida.

Texto publicado em:

MARTURANO, E. M. Papel do professor no processo de ensino e aprendizagem. sua participação na formação integral do indivíduo. Anais da Semana de Pedagogia. Ribeirão Preto, SP: Centro Universitário Barão de Mauá (CD-ROM), 2015.